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João Ponte e as abelhas felizes “à beira de um ataque de nervos”

04.08.20

O secretário da Agricultura e Florestas, João Ponte anunciou recentemente à comunicação social que, até ao Verão, os Açores irão ter um plano estratégico para a apicultura! De acordo com o titular da pasta, irão ser introduzidas um conjunto de medidas que potenciam o setor apícola a médio e longo prazo.

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Este comunicado promete ser um motivo de regozijo para todos os que gostam de abelhas e que possuem a consciência de que o mundo não sobrevive sem as mesmas.

Albert Einstein afirmou que “se as abelhas desaparecerem da face da terra, (…) não haverá raça humana”.

Estudos mais recentes confirmam a tese e informam-nos que, uma de cada três vezes que mastigamos alimentos foi polinizada por abelhas.

Do ponto de vista de qualquer leigo é bom termos um setor apícola bem desenvolvido, sobretudo, porque nesse ambiente as abelhas estão protegidas. Em causa, tudo o que é produzido pela colmeia, pólen, geleia real, ceras, própolis, o mel, a apitoxina – veneno das abelhas – incluindo os próprios enxames e a criação de rainhas, tudo poderá ser e é uma mais valia. A não esquecer, sobretudo, o impacto que a abelha tem na agricultura, somente pelo facto de serem os principais agentes polinizadores.

Abelhas

 

Nos dias de hoje, os produtores de melancia de São Miguel – depois de muito ceticismo – finalmente percebem como fazer aumentar significativamente a produção e qualidade dos frutos com a colaboração das abelhas.

Mas, a lavoura continua a substituir o trevo por azotos químicos. Com os manifestos exageros na aplicação do substituto, o trevo, que em outros tempos enchia colmeias de mel, tende a desaparecer. O pouco trevo, que ainda por aí sobra, é cortado a roçadeiras vezes sem conta, ainda antes de ser flor e até o leite e a carne perdem a etiqueta de produtos orgânicos.

O uso abusivo de herbicidas em tudo o que é lugar nem se comenta.

A não introdução de espécies melíferas em parques, rotundas, jardins públicos, escolas e estradas continua a ser a triste realidade.

O facto de o incenso ser considerado invasor, em processo de erradicação, é já assumido.

A participação dos académicos da Universidade dos Açores em estudos que beneficiem o setor e a região é inexistente.

Os poucos técnicos operacionais do SDASM – Serviços de Desenvolvimento Agrário de São Miguel, os mesmos que apoiam os apicultores nas suas explorações, que executam a moldagem de ceras, o controlo sanitário apícola e ainda socorrem todos aqueles com problemas de enxames de abelhas e vespas em casas particulares, estão, na sua maioria, a 2 e 3 anos da reforma e até ao momento não se conhecem novos formandos que os substituam.

No setor não predomina o associativismo e a atividade da desacreditada cooperativa Casermel é quase inexistente.

Portanto, o plano é de quê? De demagogia política?

Sem dúvida que dispensamos demagogia e política na apicultura. Talvez fique bem ao senhor secretário perante os seus iguais!

- Mas, continuo a não entender, ainda muito bem, o facto do referido plano estar basicamente a ser preparado sem a participação direta dos mais envolvidos no sector. Pelo que se sabe, depois de um resumido contato com alguns apicultores, e já passou muito tempo, nunca mais se ouviu falar, até ao momento, de qualquer estratégia para o sector.

A ilha de São Miguel beneficia, com mais 5 ilhas açorianas e poucos outros lugares no planeta, da possibilidade de obtenção de um estatuto de indemnidade em relação às principais doenças que afetam as abelhas e as fazem desaparecer pelo mundo inteiro.

Aqui as abelhas poderão ser realmente felizes.

Ao contrário do que é anunciado pelo Sr. secretário João Ponte, a sanidade apícola não é dos 4 pontos fundamentais anunciados neste plano.

Para que o processo, de um dito reconhecimento europeu para os Açores de zona indemne de Varroa, Loque Americana, Loque europeia, entre outras maleitas, tivesse sido uma realidade, já em 2018 e o colmatar da dedicação dos técnicos do SDASM que envidam esforços num longo processo, que já soma longos anos, numa série de exaustivos controlos sanitários à maioria dos apiários Micaelenses. Posicionou-se a ilha de São Miguel para conclusão do dossier que visa a obtenção dessa certidão Europeia que titularia a Sanidade apícola de São Miguel já em 2018.

 Porém, como o poder político ignorou os técnicos de campo, e a opinião dos apicultores que também legitimaram esta urgência, optou este executivo por seguir estratégia diferente, a de apresentar pedido de indemnidade em conjunto com outras ilhas. Estas, porém, bem mais atrasadas do que a ilha de São Miguel no que concerne ao controlo rigoroso das certificações necessárias exigidas pela Comunidade europeia.

E assim, São Miguel – graças aos nossos estimados políticos – perde a oportunidade de obter o estatuto europeu e universal de zona desprovida de endemias já em 2018.

- Pois, mas, o que é isso um ano? Afinal, um ano passa num instante!

E, que Deus nos proteja, a nós cúmplices em voto desta farsa, e sobretudo, as nossas abelhas que não votam – por agora – ainda saudáveis!

Em linha de conta, os xaropes de suplemento alimentar para as abelhas, importados sabe-se lá de onde, que estão disponíveis em superfícies comerciais locais. Ou as ceras moldadas que chegam de qualquer lado do planeta, também elas impregnadas dos tratamentos a que as abelhas de outros lugares estão sujeitas.

- Mas, em qualquer momento, o mel que comprou hoje no supermercado, a um ótimo preço, que provavelmente aparenta ser micaelense, não o é! - O mais provável é ser oriundo da china e embalado em qualquer lugar, com marca própria local ou de grandes distribuidores nacionais que lhe inspiram confiança. Esse produto, que irá dar aos seus filhos, que é tido como muito saudável é também rico em acaricidas, antibióticos e outros desinfetantes e produto final das melhores xaropadas de açúcares refinados ou de meladas de cana de açúcar com algum néctar híper poluído à mistura. De mel só o nome!

Ou, mais grave, o mel que alguém lhe envia, vindo da ilha do Pico, decerto contaminado de Loque Americana.

Depois de consumido o mel, a embalagem irá ser abandonada no seu lixo doméstico, e o resto do seu conteúdo (esperemos que não!) algures, poderá ser até aproveitado por algumas abelhas locais. Em suma, os agentes patogénicos existentes no mel, a que os humanos são imunes, são epidémicos para as abelhas e, quanto mais tempo jogarmos esta roleta, menores são as chances da apicultura Micaelense.

É impossível neste momento impedir que mel e outros produtos contaminado entrem em São Miguel, deveria esta ilha estar em estado de controlo absoluto e não está!

A verdade é que, uma vez mais, fica exposto que os desígnios das ilhas açorianas estão neste e outros assuntos a serem governados a partir da ilha Terceira, porque é de lá que vem o célebre plano e a estratégia que deixou a apicultura Micaelense mais um ano em ansiedade completa e cheia de dúvidas.

Mais grave ainda, a região apesar da sua autonomia, não se pode manifestar diretamente à Europa na defesa dos seus direitos apícolas. São os interesses açorianos representados por um qualquer organismo português continental. Sem dúvida que os bastidores político partidários se sobrepõem ao futuro da região.

É caso para se afirmar que estão as abelhas a beira de um ataque de nervos, porque em qualquer instante poderemos assistir ao trágico fim do que ainda é o santuário Micaelense para as abelhas felizes.

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